#Trends

Uma tentativa de fraude a cada 16 segundos e um mercado que a lei está criando.

Fonte: Divulgação

Em dez anos, a idwall levantou R$ 260 milhões. Em maio, foi vendida para a Serasa Experian. A conta entre esses dois números diz mais sobre o ciclo atual do venture capital brasileiro do que qualquer relatório de mercado.
Fundada em 2016 por Lincoln Ando e Raphael Melo, a empresa nasceu resolvendo um problema que o Brasil conhece bem: uma tentativa de fraude a cada 16 segundos. Começou com verificação de antecedentes e evoluiu para uma suíte de identidade digital, com leitura óptica de documentos, biometria facial com prova de vida e cruzamento de centenas de bases para gerar score de risco.

A tração foi real. Mais de 400 empresas na carteira, entre elas Bradesco Saúde, SulAmérica, Shopee, QuintoAndar e Claro Brasil. A companhia afirma ter evitado mais de R$ 8 bilhões em fraudes. No cap table estavam Monashees, Canary, Qualcomm Ventures e GGV, com uma Série C de R$ 210 milhões em 2021.

Segundo apuração do Finsiders, a venda saiu por cerca de R$ 400 milhões, quatro vezes a receita. Nem Serasa nem idwall confirmaram valores, e a operação ainda depende do Cade. Se o número se confirmar, a leitura é desconfortável. Dez anos de construção, R$ 260 milhões captados e uma saída de R$ 400 milhões. Não é fracasso, mas também não é o retorno que uma Série C de 2021 projetava. É pouso suave, não decolagem.

O detalhe mais revelador é quem comprou. A Serasa é exatamente o tipo de bureau tradicional que uma regtech como a idwall existia, em tese, para desafiar. Em vez de substituir o incumbente, foi absorvida por ele.
E o mercado só cresce. Em maio, o governo sancionou lei que endurece penas para crimes digitais e tipifica pela primeira vez o aluguel de contas bancárias. Regulação está fabricando demanda para verificação de identidade.

A leitura final é mais animadora do que parece. Um bureau centenário pagar centenas de milhões por uma startup de dez anos mostra que o mercado brasileiro aprendeu a precificar tecnologia. Cada operação dessas devolve capital a fundos como Monashees e Canary, que reinvestem na próxima geração. E cria fundadores com liquidez e experiência de saída, que é justamente o combustível que o ecossistema brasileiro mais precisa acumular.

#Deals

Radar de Deals — Semana 14 a 19 de setembro.

Global 🌎

  • Crusoe — US$ 3,9 bilhões, Série F — 17/set. Fechamento inicial a US$ 30,9 bilhões pós-money, com Nvidia, Founders Fund, TPG, GIC e Mubadala. Infraestrutura de computação para IA, em rodada que já se parece mais com project finance industrial do que com venture.

  • Bending Spoons compra o Miro — US$ 1,36 bilhão — 18/set. Aquisição com desconto de 92% sobre os US$ 17,5 bilhões que a empresa já valeu. É a segunda compra do tipo, depois do Airtable por US$ 1,28 bilhão.

  • Temporal Technologies — US$ 550 milhões, Série E — 14/set. Valuation de US$ 12,55 bilhões, liderada pela Lightspeed. Plataforma de código aberto para operar agentes de longa duração e sistemas corporativos.

  • Impulse Space — US$ 308 milhões — semana de 15/set. Desenvolvimento de veículos espaciais.

  • Tabby (Emirados) — US$ 233 milhões — semana de 15/set. Maior rodada global de fintech na semana, para expandir de BNPL para crédito e gestão financeira.

  • Factory — US$ 200 milhões — 15/set. Rodada liderada pela Blackstone.

  • Profound — US$ 180 milhões, Série D — 15/set. Rodada liderada pela Sequoia.

  • Kaiko — US$ 110 milhões — semana de 15/set. Dados de mercado para finanças on-chain.

  • Revolut — licença bancária nos EUA — semana de 15/set. Mesma aprovação condicional que o Nubank obteve em janeiro, com lançamento do banco previsto para 2027.

Brasil 🇧🇷

  • A5X — R$ 360 milhões, Série D — 14/set. Liderada por Morgan Stanley, Goldman Sachs e Kaszek, a um valuation de R$ 2,7 bilhões. Bolsa de derivativos e contraparte central para disputar com a B3, com estreia prevista para o segundo trimestre de 2027. Soma mais de R$ 730 milhões captados sem ter negociado um único contrato.

  • Databricks — R$ 1,5 bilhão, investimento direto — 16/set. Aporte em três anos, um dos maiores da companhia em um único mercado fora dos Estados Unidos, com compromisso de capacitar cerca de 150 mil pessoas.

  • Itaú e Eztec — R$ 1,17 bilhão, locação — 17/set. Maior contrato de escritórios já registrado no país, com 91,4 mil metros quadrados por dez anos e cerca de 9.600 posições de trabalho.

  • Jusbrasil compra a MinutaIA — valor não divulgado — semana de 15/set. Consolidação em IA jurídica, com meta declarada de R$ 1 bilhão em receita recorrente.

  • Beacon adquire a 314 Capital — valor não divulgado — semana de 15/set. Movimento de entrada em crédito para startups.

  • ESX, Espírito Santo — R$ 40,9 milhões em intenções de negócio — semana de 15/set. Sexta edição do evento, alta de 64% sobre os R$ 24,9 milhões de 2025.

#Review

O dinheiro grande da semana não veio de fundo.

Fonte: Divulgação

Olhe os três maiores cheques do Brasil nesta semana. A Databricks comprometeu R$ 1,5 bilhão em três anos. O Itaú assinou R$ 1,17 bilhão em dez anos de locação. A A5X levantou R$ 360 milhões com Morgan Stanley, Goldman Sachs e Kaszek, tendo formadores de mercado e casas de compensação como acionistas estratégicos. Nenhum é dinheiro de fundo de venture capital buscando saída em cinco anos.

Levantamento da EloGroup, feito com ApexBrasil, ABVCAP e Global Corporate Venturing, mostra que, entre julho de 2025 e junho de 2026, as negociações fechadas por grupos corporativos no Brasil cresceram 23% e o montante investido por eles subiu 73%. Foram 141 acordos e cerca de US$ 2 bilhões em transações, dos quais aproximadamente US$ 640 milhões com participação corporativa direta. No mesmo período, o venture capital tradicional fechou o segundo trimestre de 2026 em US$ 391,6 milhões, alta de 16,6% sobre o trimestre anterior, mas ainda abaixo dos níveis de 2025.

O movimento não é local. Segundo o World of Corporate Venturing 2026, mais de três mil corporações investiram em startups no mundo no ano passado, em 5.221 rodadas, alta de 30%, movimentando US$ 233,8 bilhões, alta de 75%. Cerca de uma em cada cinco rodadas no planeta tem investidor corporativo.

O capital marginal em inovação no Brasil hoje é de balanço de empresa, não de fundo, e isso muda a natureza do dinheiro que está na mesa. Fundo e corporação compram coisas diferentes. Fundo compra opção de valorização e tem obrigação contratual de devolver capital ao cotista num prazo definido, o que o torna previsível na intenção e impaciente no tempo. Corporação compra posição estratégica, não tem prazo de devolução e por isso é mais paciente, mas responde a uma agenda que pode mudar sem aviso e sem negociação. A Databricks não está atrás de múltiplo, está comprando mercado. O Itaú não comprou imóvel, comprou previsibilidade operacional até 2036. Para quem capta, a troca é essa: menos pressão de saída, mais exposição à estratégia alheia. E há um risco de ciclo que quase ninguém precifica, porque orçamento de inovação corporativa é a primeira linha cortada quando o balanço aperta, enquanto fundo, uma vez captado, tem o compromisso de investir.

Toda mudança na origem do capital acaba virando mudança no tipo de empresa que se constrói. Se o dinheiro que está disponível é o de quem quer resolver o próprio problema, o Brasil vai formar mais fornecedores estratégicos e menos apostas independentes. Isso não é pior, é diferente, e vale saber disso antes de sentar na mesa.