#Trends

Quando um banco centenário decide se enxergar como empresa de tecnologia

Fonte: Divulgação

Em julho de 2026, o Itaú fez algo que nenhum banco brasileiro havia feito: mexeu no próprio logotipo. Retirou as letras "t" e "ú" das fachadas em São Paulo e no Rio, e da identidade digital, deixando apenas "I" e "a". Não era rebranding, era teaser da ia.i, sua nova plataforma de IA generativa. Mas quem lê o movimento como campanha publicitária perde o ponto. O que está em jogo não é comunicação. É identidade.

O produto sustenta a ambição. A ia.i substitui a navegação por menus por linguagem natural, texto ou voz. O cliente diz o que quer e a plataforma executa, cobrindo conta, cartões, crédito, investimentos, seguros e Pix.

Mas o que dá densidade a esse movimento é que ele não nasceu ontem. Desde 2015, o Itaú mantém o Cubo, hub de inovação criado com a Redpoint eventures que virou o maior da América Latina. Mais de mil startups já passaram por lá. Só em 2024, as residentes faturaram cerca de R$ 10 bilhões, crescimento superior a 40%, e empregaram mais de 27 mil pessoas.

E aqui está a leitura que interessa ao ecossistema. Para muitas corporações, ser tech virou um status, que define como a empresa quer ser lida pelo mercado, pelos novos talentos e pelo investidor

Só que status construído apenas em campanha evapora no trimestre seguinte. O que diferencia o Itaú é que a mudança de comunicação vem acompanhada de dez anos de infraestrutura, capital e relacionamento com o ecossistema real de inovação.

#Deals

Radar de Deals — Semana de 16 a 23 de agosto

Global 🌎

  • Higgsfield — US$ 400M, Série B. Plataforma de criação de vídeo e imagem por IA; valuation de US$ 5,4 bilhões.

  • Wispr Flow — US$ 280M, Série B. Interface de voz para produtividade; liderada pela Menlo Ventures. Maior rodada da semana no ecossistema indiano.

  • Rillet — US$ 100M, Série C. IA para contabilidade corporativa, competindo com SAP, Oracle e NetSuite; liderada pela ICONIQ a um valuation de US$ 1 bilhão, com Sequoia, a16z, Bain Capital Ventures e Battery. Terceira rodada da empresa em cerca de um ano.

#Review

Founders e Crédito alinhados ao crescimento, quem se beneficia nesse movimento?

Fonte: Divulgação

"O venture capital está voltando."

É a frase que abre toda análise de trimestre em recuperação. Ela acerta no volume e erra na forma, e a diferença entre as duas coisas é a informação que importa.

O capital voltou, mas mudou de instrumento. Segundo relatório da Sling Hub em parceria com a Torq, entre as cinco maiores rodadas de fintechs do Sudeste em 2025, região que concentra mais de 88% do volume investido no setor, quatro foram estruturadas como dívida via FIDC. A única de equity foi a Série G da Creditas, de US$ 108 milhões. As duas maiores de todas, ambas da CloudWalk, foram crédito: US$ 788 milhões e US$ 549 milhões.

A leitura de manchete comemora a retomada do volume. A leitura estrutural pergunta o que esse volume comprou, e a resposta é o ponto: cada vez menos participação em empresas. Por anos, captar equity foi o marco de validação de um founder, medido pelo tamanho da rodada e pelo nome do fundo no cap table. Essa régua nasceu num ambiente de juro baixo e liquidez farta, em que diluir era barato e crescer a qualquer custo era o mandato. O ambiente virou. Com dinheiro caro e mercado cobrando rentabilidade, quem construiu receita previsível descobriu que financiar crescimento com dívida preserva o que o equity cobra como pedágio: conselho, preferência de liquidação e controle. Não é modismo. Nos Estados Unidos o venture debt existe há quarenta anos e ajudou a financiar Airbnb, Spotify e Uber. O Brasil está apenas importando, com atraso, uma sofisticação que lá já é rotina.

Vale nomear o custo, porque a peça seria desonesta sem ele. Dívida não é rodada disfarçada e não salva negócio ruim. Ela exige caixa para ser paga e pune quem não tem previsibilidade.

A migração de equity para crédito não democratiza capital, ela recompensa quem já tem unit economics em ordem e deixa para trás quem depende de história para crescer.

Captar equity era o sinal de que a startup havia chegado lá. Agora o sinal inverteu: conseguir dívida é a prova de que ela já chegou. Nenhum credor aceita risco sem previsibilidade, e é justamente isso que o venture debt atesta ao founder que o obtém. O mercado deixou de premiar quem convence e passou a premiar quem comprova. Não é o capital que está voltando. É a régua que mudou de mãos, saindo do investidor que aposta em narrativa para o credor que só assina diante de números.