#Trends

O M&A que reorganizou o ambiente de Legaltechs no Brasil.

Fonte: Divulgação

Quando o maior hub de inovação do continente cria uma vertical para o seu setor, a novidade já passou. Em 31 de março, o Cubo Itaú lançou o Cubo Legal, sua décima quarta vertical, com 32 legaltechs no primeiro dia e Mattos Filho, Cescon Barrieu, Clicksign e AG TAX como mantenedoras.

O que o lançamento certifica é uma consolidação que já tinha acontecido, e quase sem cobertura. O Grupo Preâmbulo Tech investiu mais de R$ 50 milhões em cinco anos e hoje reúne nove frentes, entre elas Preâmbulo Tech, Cria.AI, Acordo Fechado, Contraktor e LawVision, somando 14 milhões de processos e 6 mil clientes. A Migalhas classificou o movimento como M&A silencioso da legaltech brasileira, sem fusão anunciada nem cifra bilionária. Do outro lado, a Aleve, venture builder com tese exclusiva no setor, encerrou o quinto ano com 11 startups e portfólio consolidado indo de R$ 100 milhões para R$ 180 milhões, tendo vendido a Cria.AI à Preâmbulo em outubro de 2025.

O padrão que vemos é claro: em legaltech, o ativo escasso não é o modelo, é a distribuição para o advogado. A Preâmbulo comprou inteligência artificial para plugar em ERPs que já vendia a 6 mil clientes. A Jusbrasil comprou a MinutaIA para somar à base que já tem. A chilena Magnar define a meta em número de advogados alcançados, não em produto.

Estamos no momento em que legaltech deixa de ser categoria de startup e vira indústria com donos definidos. Quem não tinha base de advogados quando a janela abriu vai precisar comprá-la, e agora ela tem preço.

#Deals

Radar de Deals — Semana de 27 de setembro a 4 de outubro

Global 🌎

  • Armadin — US$ 255M, Série B — 02/out. Cibersegurança nativa de IA; rodada liderada pela a16z. Terceira semana seguida com cibersegurança entre os maiores cheques.

  • Varda — US$ 251M, Série D — 30/set. Produção de medicamentos em órbita; liderada por Lux Capital e Natural Capital.

  • Reverion (Alemanha) — €150M, Série B — fim de setembro. Energia de ciclo invertido; liderada pela Kembara, fundo de deep tech e clima.

  • Quartermaster — US$ 140M, Série B — 02/out. Sediada em Arlington, na Virgínia.

  • Jeeves — US$ 110M, Série D — 29/set. Liderada pela CoinFund.

  • Efficient Computer — US$ 97M, Série B — 29/set. Liderada pela TQ Ventures.

  • Metaview — US$ 60M, Série C — 30/set. Plataforma agêntica de recrutamento.

  • Flow — US$ 50M, Série B — 30/set. Liderada pela Valor Equity Partners.

  • Fortem Technologies — US$ 50M, Série B — 30/set. Segurança de espaço aéreo; liderada pela Lockheed Martin. Fabricante de defesa liderando rodada diretamente, não via braço de CVC.

  • Miter — US$ 40M, Série B — 30/set. Liderada pela Battery Ventures.

#Review

No Reino Unido, a IA já pode ser a prestadora. No Brasil, só a ferramenta.

Fonte: Pexels

Enquanto o mercado brasileiro discute quem vai consolidar a distribuição, lá fora a pergunta mudou de lugar. Em maio de 2025, o regulador britânico autorizou a Garfield.Law a operar como escritório de advocacia cujos serviços são prestados inteiramente por inteligência artificial, atuando na recuperação de dívidas de até 10 mil libras. Em 2026, a empresa venceu seu primeiro caso em tribunal, recuperando 7 mil libras para um freelancer.

O detalhe que importa é o desenho. A autorização não criou um advogado-máquina. A IA só age com aprovação do cliente, há supervisão humana e advogados registrados continuam integralmente responsáveis. O regulador não liberou autonomia. Liberou que uma empresa de software fosse a prestadora do serviço.

É exatamente essa figura que não existe no Brasil, e não por falta de regra. A Recomendação OAB 001/2024 orienta o uso de IA generativa na advocacia, e a Resolução CNJ 615/2025 regula o uso no Judiciário com 74 artigos, três níveis de risco e vedação a decisão exclusivamente automatizada. Há marco, e ele é denso.

O ponto é a arquitetura dele. Toda norma brasileira ancora a responsabilidade numa pessoa natural inscrita na OAB. A tecnologia pode assistir, nunca prestar. Não é lacuna, é escolha de desenho.

E a demanda existe. São 1.498.620 advogados ativos, com adoção de IA saltando de 55% para 76% em um ano, segundo estudo Jusbrasil e OAB, num Judiciário que fechou 2024 com mais de 80 milhões de processos pendentes.

Toda a consolidação que descrevemos acontece dentro de uma faixa só, a da ferramenta que assiste o profissional. É um mercado grande, e é também um teto. Quem compra base de advogados hoje aposta que ele vai subir. Só que subir esse teto não depende de a OAB se decidir. Depende de repensar quem pode ser sujeito de responsabilidade jurídica, o que é discussão de outra ordem.